Um acidente, ocorrido no Rio de Janeiro, com um veículo a gás natural (GNV), trouxe à tona a necessidade de se reforçar alguns conceitos básicos, sobre as técnicas de combate a incêndio nesse tipo de caso.
O que é necessário lembrar sempre, é que o chamado veículo a GNV, convertido em nosso país, é um veículo bi-combustível. Isto é, o veículo possui um reservatório de gasolina ou de álcool, e mais um de gás natural. Dadas as propriedades físicas do GNV, ele entra em ignição a temperaturas de 480 a 630 graus centígrados. Como a gasolina ou o álcool entram em ignição a temperaturas mais baixas, conclui-se que o incêndio num veículo a bi-combustível a GNV é iniciado sempre pelo combustível líquido.
Uma vez iniciado o incêndio, há possibilidade dele atingir o cilindro de armazenamento do gás, o qual está pressurizado à pressão máxima de 200 bar. O tamanho e o número desses cilindros é determinado pela disponibilidade de espaço nos diversos veículos, ou mesmo pela vontade do usuário.
A primeira medida é evacuar todas as pessoas da área perigosa, mantendo-as a uma distância mínima de 30 metros do veículo em chamas.
O calor gerado pelo incêndio pode aumentar a pressão do gás armazenado. Por essa razão, os cilindros de armazenamento de GNV são todos equipados com dispositivos de alívio de pressão para atuar em casos como esse, evitando a ocorrência de um rompimento.
Na hipótese do veículo estar totalmente envolto em chamas e o cilindro estar sofrendo a ação do calor, não se deve lançar sobre ele um jato de água direto ou um jato sólido. Isso pode modificar as características de resistência do material. Procure reduzir o calor no cilindro, através do uso de uma neblina de água, até que o dispositivo de segurança entre em funcionamento liberando o gás contido e assim evitando modificações na estrutura metálica do cilindro causadas pelo choque térmico. Enquanto não houver certeza de que o gás foi liberado, o cilindro não pode receber jato de água direto, ou seja, jato sólido.
Considerando que:
¨ não se sabe se o veículo em chamas é um veículo convertido para GNV;
¨ não se sabe o volume existente de combustível líquido e materiais inflamáveis;
¨ não se pode avaliar qual o volume de GNV no cilindro;
¨ não se sabe se os dispositivos de segurança liberaram o GNV;
¨ não se pode saber também a que temperatura está o cilindro;
¨ sempre devemos considerar que qualquer veículo possa tratar-se de um veículo convertido para GNV.
O QUE FAZER NESTE CASO?
Simplesmente:
¨ não utilizar jato de água “sólido”, diretamente no cilindro; o incêndio começa normalmente no motor;
¨ utilizar jato de água em forma de neblina;
¨ manter-se numa distância do veículo de pelo menos três metros;
¨ no primeiro momento, manter-se agachado, deitado, ou mesmo protegido por outro veículo próximo, poste, árvore ou paredes.
POR QUE ESSES CUIDADOS?
Infelizmente, como acontece em todos os demais setores de atividades, não podemos deixar de mencionar que aqui também o FATOR HUMANO interfere na avançada tecnologia que foi desenvolvida para a conversão de veículos a GNV. As interferências vão, dentre inúmeras outras, desde a obstrução de dispositivos de segurança, eliminando-os parcial ou totalmente, indo até a utilização de componentes inadequados para suportar a pressão de 200 bar.
O uso de gás natural veicular é extremamente seguro, dadas suas características de inflamabilidade, superior a qualquer outro combustível líquido, e amplamente utilizado em todo o mundo em mais de 3 milhões de veículos. O Brasil conta com a segunda maior frota de veículos a GNV do mundo, depois da Argentina que tem 1,2 milhões de veículos usando esse combustível.
O Brasil incorporou, além da alta tecnologia, um rol de normas técnicas e regulamentos, de alto cunho técnico. As normas adotadas para a fabricação de componentes em geral e no cilindro de armazenamento do gás em particular, são baseadas nas normas ISO - International Standards Organization e confirmadas pela ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas e pelo Inmetro. Além das normas citadas, o Inmetro já dispõe de toda a regulamentação necessária, também baseada em práticas em todo o mundo, para assegurar a segurança e qualidade dos componentes e de sua instalação nos veículos. A utilização dessas normas e regulamentos é fiscalizada por organismos credenciados pelo Inmetro.
Colaboração: R.Fernandes, Coordenador do Comitê de GNV do IBP