Perspectivas de difusão do Gás Natural na indústria de Cerâmica Vermelha
Com a ocorrência de importantes descobertas de jazidas de gás natural no Brasil nas décadas de 80 e 90 e a conseqüente ampliação da rede de transporte e distribuição, iniciou-se um processo de gradativa difusão desse combustível na matriz energética do país, ainda que inicialmente restrito às regiões sudeste e nordeste, com destaque inicial para os grandes consumidores do setor industrial, principalmente as indústrias de base, entre 1984 e 1990. A partir do final da década de 90, com o aumento da produção de gás natural nas bacias de Campos e do Nordeste, e com a chegada do gás natural da Bolívia no ano 2000, os segmentos automotivo e de geração termoelétrica também passaram a incorporá-lo de maneira mais intensa, o que contribuiu para aumentar a difusão do gás natural na economia brasileira, no intento de cumprir a meta de elevação de sua participação na matriz de insumos energéticos primários de 3% (1999) para 12% em 2010.
Na indústria brasileira, a difusão do gás natural tem se dado de modo mais destacado que em outros setores da economia, considerando sua atual parcela de participação, da ordem de 54% na demanda total de gás natural fornecido pelas distribuidoras estaduais. Tal ocorre, com algumas variações, em quase todos os segmentos industriais, à exceção das áreas de papel e celulose, cimenteira e cerâmica. No primeiro, o elevado índice de recuperação de resíduos de processo como insumo energético explica a relativa limitação da demanda de gás natural no setor. No setor cimenteiro, se destaca o mesmo tipo de comportamento em todo o mundo, mas em função de poder operar com combustíveis menos nobres, como, por exemplo, o carvão e o coque de petróleo. Por outro lado, ao contrário de outros países e à exceção da cerâmica de revestimento e outras envolvendo produção de mais alto valor agregado, o setor cerâmico de cerâmica vermelha (estrutural) brasileiro, com sua importante parcela de cerca de 10.000 empresas, não reagiu até o momento de modo positivo em relação ao gás natural. Este segmento apresenta um grande potencial de consumo de gás natural, até aqui quase inexplorado e que poderia ser incorporado à matriz energética brasileira, a exemplo do que ocorreu em outros países. As razões e motivações para esse comportamento, além da avaliação das perspectivas e conseqüências da difusão do gás natural na cerâmica vermelha, constituem o tema básico a ser investigado neste trabalho.
Nesse sentido, este trabalho visou identificar as regiões onde o gás natural já é empregado na cerâmica vermelha, destacar os resultados já obtidos, além de suas vantagens e limitações, sob os pontos de vista tecnológico, econômico, ambiental, estratégico e social. E a partir daí, projetar as possibilidades de ampliação de seu emprego, identificando os principais pólos de consumo e confrontando as ofertas locais de gás natural promovidas pela atual rede de distribuição e pelas futuras áreas de expansão, incluindo-se aí as possibilidades de distribuição por dutos, GNC e GNL.
A INDÚSTRIA DE CERÂMICA VERMELHA NO BRASIL
O setor cerâmico no Brasil tem uma grande importância econômica, com uma participação no PIB nacional da ordem de 1,0 %, além de apresentar características de capilaridade no cenário da economia, com a participação de micros, pequenas, médias e grandes empresas, em todos os estados, no interior e nas regiões metropolitanas, em quase todos os municípios do país. Já o setor de cerâmica vermelha responde por cerca de 0,4% do Produto Interno Bruto do país, valor equivalente a R$ 4,2 bilhões/ano (2003), apresentando cerca de 10.000 unidades de produção, incluindo parcela significativa de olarias e micro-empresas de operação informal e/ou sazonal, além de não automatizadas, com processos arcaicos, manuais, sem extrusão mecânica e que com freqüência não se constituem em empresas devidamente registradas. Com isso, operavam em 2004 de modo efetivo e oficial no país, apresentando capacidades de produção acima de 50 milheiros/mês, por volta de 6.800 empresas de cerâmica vermelha, envolvendo a oferta de 214.000 empregos diretos (31,5 trabalhadores/empresa) e a produção de cerca de 2.500.000 milheiros / mês (blocos, 84,5 % e telhas, 15,5%), equivalente a uma produção total de cerca de 65.000.000 t/ano. A produção mensal média por empresa é de 368 milheiros/empresa.mês, enquanto a produtividade média por trabalhador, é da ordem de 11,1 milheiros/trabalhador.mês. O consumo específico de lenha e resíduos vegetais, dominantes no país, é da ordem de 588 m3/empresa.mês (1,6 m3/milheiro). O consumo de energia elétrica do setor é da ordem de 113 milhões de kWh/mês (47,6% do setor cerâmico), com uma média de 16.600 kWh/empresa.mês e de 91 kW / 99 kVA de demanda média de potência ativa e reativa por empresa. A potência elétrica total (ativa e aparente) para atender as 6.800 empresas do segmento no país é da ordem de 619 MW / 673 MW, valores equivalentes a cerca de 0,77 % da capacidade instalada no país e 0,36 % do consumo de energia elétrica no país. A distribuição da produção nacional da indústria de cerâmica vermelha por estados é a seguinte (mil milheiros / mês):
SÃO PAULO – 540; MINAS GERAIS – 300; RIO GRANDE DO SUL – 250; PARANÁ – 200; RIO DE JANEIRO – 150; SANTA CATARINA – 150; BAHIA – 130; GOIÁS - 120; CEARÁ – 120; RIO GRANDE DO NORTE – 83; ESPÍRITO SANTO – 50; PERNAMBUCO – 45; PARAÍBA – 40; MARANHÃO – 40; TOCANTINS – 35; PARÁ – 35; SERGIPE – 30; PIAUÍ – 30; AMAZONAS – 30; ALAGOAS – 26; DISTRITO FEDERAL – 20; MATO GROSSO DO SUL – 17; MATO GROSSO – 15; RONDÔNIA – 15; ACRE – 6; RORAIMA – 6; AMAPÁ – 6; TOTAL – 2.489
Além dos milhares de unidades de produção, o segmento também responde pela vertente mineradora, as jazidas de argila que, na maior parte dos casos, são parte integrante do negócio da empresa. Sua demanda de insumos é ampla, incluindo-se máquinas, matéria-prima, lubrificantes, pneus, etc. e principalmente energia (lenha, gás natural, eletricidade, óleo combustível, óleo diesel, GLP, resíduos de biomassa, etc.), formando um cenário de demanda energética ampla, de forte participação em seus custos de produção.
OFERTA DE GÁS NATURAL
Até o final da década de 80, a oferta de gás natural no Brasil se concentrava nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, atendidos pela bacia de Campos, além da Bahia e Rio Grande do Norte, com jazidas em terra e mar. Durante muitos anos, se destacaram como distribuidoras as empresas da Bahia e principalmente Rio de Janeiro e São Paulo, que puderam comercializar o gás natural em grande escala, em função da considerável rede de distribuição urbana, com que já contavam, da ordem de 2.000 km, em cada cidade. Somente ao longo da década de 90, com a ampliação da exploração na bacia de Campos, o que permitiu levar o gás natural a Minas Gerais, com o desenvolvimento da exploração nas bacias do Nordeste (Rio Grande do Norte, Ceará, Alagoas, Sergipe e Bahia) e finalmente com a chegada do gás natural da Bolívia (abril de 2000), é que o mercado consumidor toma maior impulso no país, com o atendimento do mercado da região sul. Nesse processo, seriam criadas mais de 20 empresas estaduais de distribuição de gás natural. Segundo dados da Abegás, em nov./2005 a rede de distribuição nos estados apresentava as seguintes características de extensão de rede (km), volume total distribuído (mil m3/dia), volume industrial distribuído (mil m3/dia) e percentual de participação industrial (%):
SÃO PAULO - 4.038 / 13.998 / 10.888 / 77,8; RIO DE JANEIRO - 3.146 / 11.655 / 4398 / 37,7; BAHIA - 300 / 3.557 / 2566 / 72,1; RIO GRANDE DO SUL – 346 / 3.281 / 884 / 26,9; STA. CATARINA – 479 / 1.352 / 1092 / 80,8; PERNAMBUCO – 211 / 3.063 / 738 / 24,1 ; MINAS GERAIS – 128 / 2.026 / 1111 / 54,8; PARANÁ – 412 / 619 / 394 / 63,7; CEARÁ – 181 / 886 / 250 / 28,2; ESPÍRITO SANTO – 51 / 993 / 871 / 87,7; R.G. DO NORTE – 171 / 358 / 171 / 47,8; M. G. DO SUL – 75 / 2.077 / 8 / 0,4; ALAGOAS – 122 / 397 / 292 / 73,6; PARAÍBA - 68 / 296 / 198 / 66,9; SERGIPE – 67 / 241 / 153 / 63,5; TOTAL - 9.815 km / 44.799 m3/dia / 24014 m3/dia / 53,6.
A partir do início da década de 90, além de atender aos mercados do Rio de Janeiro e São Paulo, o gás natural de Campos passou também a ser transportado e distribuído para Minas Gerais, para atender a Gasmig, totalizando um fornecimento de cerca de 14,5 milhões de m3/dia. A partir do aumento da exploração das jazidas do Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará, Alagoas e Sergipe, passou-se a atender através do gasoduto do Nordeste, a todas as capitais dos estados entre Salvador e Fortaleza, fornecendo um total da ordem de 8,8 milhões de m3/dia. Com a chegada do gás natural da Bolívia em abril de 2000 aos mercados do Sul e Sudeste, a oferta se elevou em mais de 15 milhões de m3/dia, passando a atender ao mercado do Sul e a maior parte do mercado de São Paulo. No Sul, mais exatamente em Uruguaiana (RS) também ocorre o recebimento de gás natural argentino, para geração termoelétrica, numa usina de 600 MW, com um consumo da ordem de 1,0 a 2,5 milhões de m3/dia, conforme a demanda de energia elétrica.
Os mais recentes planos da Petrobrás indicam a intenção de dobrar a rede de transporte de gás natural em cerca de 4.000 km até 2008. Com essa implementação pretende-se elevar a oferta de gás natural até 2008 para cerca de 60 milhões de m3/dia. O processo de expansão da rede de transporte está atualmente se dando em algumas frentes, dentre elas, a ligação de Campinas a Japeri (453 km, com 5,8 milhões de m3/dia), para reforçar a oferta para o Rio de Janeiro e Minas Gerais, a complementação da ligação do Sudeste com o Nordeste, através do Gasene (Gasoduto Sudeste-Nordeste), ligando Cabiúnas (RJ) a Catú (BA), com 1.310 km e demanda máxima de 20 milhões de m3/dia, que deverá transportar o gás natural excedente do Sudeste (Rio de Janeiro e Espírito Santo) para o Nordeste, inicialmente da ordem de 8,5 milhões de m3/dia, o gasoduto Coari – Manaus, de 383 km, com uma demanda a ser atendida da ordem de 7,5 milhões de m3/dia e o gasoduto Lateral Bolívia – Cuiabá (267 km e 2,8 milhões/m3. Também deverão ter prosseguimento as obras do gasoduto de Uruguaiana a Porto Alegre, de Mossoró (RN) a Pilar (AL), atravessando o interior do Nordeste, do gasoduto Guamaré (RN) – Pecém (CE) e do trecho Catú (BA) – Carmópolis (SE). Os prazos de término das obras referidas encontram-se entre dezembro de 2005 e agosto de 2007.
Pela ampla distribuição no território do país e pela incidência de grande parcela de micro e pequenas empresas instaladas em regiões isoladas do interior, o setor de cerâmica vermelha está em boa parcela afastado da rede de atendimento, o que estabelece uma considerável barreira para o seu atendimento com gás natural. Nos casos de estados de pequena extensão geográfica, como o Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Sergipe e outros, torna-se mais viável a possibilidade de expansão da rede de distribuição de gás natural até as empresas mais afastadas, através de redes de poucas centenas de quilômetros, ao contrário do que ocorre com estados mais extensos, como Minas Gerais, Ceará, Bahia, Rio Grande do Sul e outros. De qualquer modo, parte significativa das empresas do segmento encontra-se concentrada em alguns pólos de mais destaque, como no Rio de Janeiro (3 pólos), Minas Gerais (4), São Paulo (2), Ceará (3), Rio Grande do Norte (3), Paraná (4), Santa Catarina (3), Rio Grande do Sul (2) e Goiás (1), totalizando 25 pólos de maior importância, o que permite estabelecer políticas de priorização do atendimento dessas regiões, como já vem ocorrendo em alguns estados. Dentre os estados que já puseram ou estão pondo em prática este tipo de ação, encontram-se o Rio de Janeiro (Campos e Itaboraí), São Paulo (Itu e Tatuí), Santa Catarina (Morro da Fumaça e Vale do Itajaí – Tijucas) e Rio Grande do Norte (Assú e Seridó).
Este artigo foi enviado por Marcelo Schwob - INT
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