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Esclarecimentos para utilização de cilindros

Especialistas alertam para a falta de esclarecimentos na utilização de cilindros

O cilindro considerado o componente mais importante de uma instalação de GNV, armazena o gás natural à alta pressão e resiste bravamente as cargas e descargas desse combustível. Além das várias características mecânicas que devem ser consideradas na fabricação dos cilindros, a segurança é o principal fator de preocupação na hora de projetar esse componente.

Algumas vezes, por falta de conhecimento ou simplesmente por falta de esclarecimento, os  procedimentos de requalificação e os cuidados que devem ser tomados na hora de inspecionar um cilindro, são mal interpretados. Construído e preparado para resistir a altas pressões, o cilindro é projetado para armazenar o GNV a uma pressão de serviço de 200 bar, no entanto pressões muito acima desta, fornecidas em postos de abastecimento, podem comprometer a segurança do usuário.

Além disso, a condenação de cilindros no momento da requalificação, muitas vezes é mal recebida pelos seus usuários, no entanto esse procedimento é necessário e devido, tendo em vista a segurança de todos.Por incrível que pareça, até componentes de válvulas são encontradas no interior desses cilindros. Porque isso acontece, veja a seguir a entrevista que realizamos com o engenheiro Guilherme Augusto de Castro, um dos maiores especialistas nesse assunto, para nos explicar o processo de fabricação e alguns cuidados que devem ser tomados no controle desses cilindros.

Globo Gás Brasil: Um cilindro de GNV pode ter soldas, provenientes da fábrica, em seu corpo?

Guilherme Augusto de Castro: Atualmente no Brasil duas normas são aceitas para a fabricação de cilindros para GNV. A norma ISO 4705 para cilindros de aço, recarregáveis, sem costura, para gases e a norma ISO 11439 para cilindros de alta pressão, para armazenamento de gás natural como combustível, a bordo de veículos automotivos.

A primeira norma ISO 4705 tem em seu título a informação de que se trata de uma norma para cilindros “sem costura”, ou seja, o tubo original não possui soldas. A norma ISO 11439 informa que no fechamento dos tubos que irão formar o cilindro acabado ou o “liner” interno do cilindro revestido, não pode ter adição de material. Resumindo, não existe hoje no Brasil norma que permita a fabricação de cilindros de alta pressão para transporte de GNV que não seja em aço sem costura, ou seja,sem solda.

Globo Gás Brasil: Quando se encontra algum vestígio de solda, o requalificador deve condenar este cilindro? E por quê?

Castro: O único fabricante de tubos de cilindros sem costura, que abastece o mercado brasileiro, só disponibiliza o tipo AISI 4130 em uma versão modificada com adição de Boro para aumentar ainda mais as características de alta temperabilidade do material. Este aço possui um carbono equivalente muito superior ao máximo permitido para considerá- lo como soldável segundo os conceitos de fabricação de qualquer que seja a norma de fabricação. Ou seja, quando este tipo de aço recebe adição de solda ou mesmo sofre abertura de arco elétrico, ele trinca.

E isto é um fator que a norma de reteste NBR 12274 e aquela da qual ela se originou em sua maior parte, a norma ISO 6406, informam que o cilindro deve ser condenado em caso da existência de soldas nos mesmos. Inúmeros são os casos de cilindros que causaram acidentes fatais devido a profissionais que preferiram ignorar este fato.

Globo Gás Brasil: Esta correta a resposta do fabricante em afirmar que algumas soldas em seus cilindros são de fabricação, tecnicamente esta informação procede?

Castro: Esta afirmação é simplesmente absurda e criminosa. Por outro lado, embora alguns profissionais envolvidos na fabricação não possuam conhecimentos adequados a respeito da metalurgia do aço que está sendo utilizado, eu acho muito difícil que os departamentos de Controle de Qualidade dos fabricantes brasileiros ignorem os princípios básicos das normas que estão sendo adotadas. Devo lembrar, no entanto que não é incomum a existência de profissionais não habilitados atuando na área de reteste de cilindros, deste modo não é raro que um inspetor confunda uma mancha de corrosão ou marca de fabricação, com uma abertura de arco ou adição de solda. O lixamento de áreas com marcas de ferramentas de conformação (spinner – veja foto) ou mesmo áreas lixadas com corrosão localizada, por exemplo, podem causar marcas que facilmente podem ser confundidas por adição de solda por profissional não adequadamente informado. Em caso de dúvida as marcas externas causadas por soldas podem, no entanto, ser facilmente detectadas com auxilio de um reagente metalográfico, como o Nital por ou pelo exame interno do cilindro.

Globo Gás Brasil: Por que são encontrados os dispositivos de segurança da válvula, como mola e dispositivo de excesso de fluxo, no interior dos cilindros durante o serviço de requalificação?

Castro: Esta pergunta é realmente muito interessante. A metodologia de certificação adotada pelo Inmetro (Portaria 257) se baseia numa tradução quase que literal das normas ISO 15500. O Inmetro resolveu revisar a regulamentação técnica, pois as normas ISO, são muito genéricas, no que dizem respeito à metodologia de ensaio dos componentes. Além disso, alguns dogmas do tipo: Fabricantes internacionais “consagrados” são melhores do que os fabricantes brasileiros; Fabricantes internacionais já utilizam as normas ISO integralmente e eles produzem equipamentos melhores do que os nossos; “O que é bom para ISO serve para nós também”, pois eles sabem mais do que nós pobres subdesenvolvidos. Sendo assim, esses dogmas podem nos levar a usar as normas ISO em sua versão integral, pois o mundo todo usa a ISO integralmente.

Além do mais, quando o processo de aprovação de válvulas utiliza uma metodologia inadequada de ensaios, pode gerar produtos que se danificam após pouco tempo de uso, como é o caso do despreendimento destes dispositivos de segurança. Vale lembrar, que o Inmetro ao revisar o Regulamento Técnico da Qualidade (RTQ) de componentes para instalação do sistema para GNV, complementou os requisitos das normas ISO 15500 em um trabalho trabalho de vários meses que culminou com esta revisão.

Dessa forma, a revisão deste RTQ não permite que uma válvura seja testada por metodologia incerta e aprovada quanto a parâmetros pouco ou nada definidos evitando-se então diversas falhas existentes nessas normas ISO. Ou seja, enquanto não for mais bem definida, a metodologia de teste e a metodologia de certificação hoje aplicada, não garante a qualidade do projeto e/ou dos componentes fabricados de qualquer dos componentes utilizados e se  insistirmos em adotar normas incompletas ou não adequadas as condições de uso só estaremos comprovando oficialmente a existência de produtos inadequados.

Globo Gás Brasil: Existe algum avanço tecnológico na fabricação de válvulas?

Castro: O setor esta progredindo em ritmo mais rápido do que os fabricantes desejam.

Um exemplo do que hoje seria a válvula solenóide da Sherwood Superior com um chip que permite a leitura da pressão e temperatura que permite o alívio de pressão gradual evitando que o gás realimente o fogo em caso de incêndio ou desnecessariamente libere todo o gás causando deste modo um potencial risco de incêndio nas proximidades do cilindro em caso de sobre pressão. Ao custo de US$ 80,00 ela é, no entanto, um desenvolvimento tecnológico que pode não ser de interesse do mercado no presente momento.

Por Rejane Acioli

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